Brincadeiras transformam-se em jogos que se transformam em esporte. E aí a competição muda tudo. De qualquer maneira, sempre existirá o espírito de brincadeira, estejamos falando de Jogos Olímpicos ou de uma pelada de várzea. O problema é que, às vezes, nos confundimos com esse fato.
Mas esporte não é isso? Algumas vezes simples, outras vezes complexo e contraditório. É sério, mas de brincadeira; recompensador, mas caro; intrínseco; extrínseco; tudo é a equipe e tudo é o individual. No fim, a maneira como nos relacionamos com o esporte é parte da maneira como nos relacionamos com nós mesmos. De fato, o esporte não apenas reflete a sociedade, mas esta última também absorve tudo o que acontece nos campos de futebol, quadras, pistas, etc, do mundo afora.
Creio que já escrevi isso aqui antes – parte do fascínio pelo esporte surge do fato de que ele é na maioria das vezes justo e capaz de sobrepujar todas as barreiras de raça, classe social, idade e gênero, tendo feito muito mais pela fraternidade universal do que quaisquer outras instituições existentes.
Se acreditarmos que somos basicamente seres morais, então o quanto mais entendermos sobre nós mesmos através do conjunto de experiências diárias e da educação, maiores serão nossas chances de atingir um patamar capaz do nos fazer distinguir melhor o que é bom e certo. Eu gosto de esportes, mas entendo que existe um número muito maior de pessoas que preferem assistir a praticá-los. Às vezes esse fato me intriga. Se eu estiver com a noção errada, pelo menos espero que eles aprendam alguma coisa com a observação.
Todos aqueles longões rotineiramente feitos durante a preparação para as maratonas não foram bons apenas para sedimentar uma base de resistência física e aeróbia; quantas incontáveis pequenas reflexões e decisões (nem sempre pequenas) tomei naquelas horas! Desde algumas como que carro escolher ou engajar-me em um curso até a insana de fazer triathlon para atacar a monotonia de treinos contra a qual algumas vezes brigava (ainda bem que me casei antes de fazer maratonas, senão minha esposa ia perguntar se resolvi casar com ela numa corrida ;-) Embora nesses momentos eu procurasse desligar-me de tudo e me concentrar no treino, vez por outra surgia
eu mesmo dizendo, resolutamente: é isso que eu penso sobre sua eterna indecisão a respeito desse assunto! Como não pensou nisso? Se liga, cara!
Mas será que deve ser sempre assim? Será que terei que correr cada vez mais tempo e mais longe até que as resoluções apareçam, que nem um Forrest Gump procurando suas respostas correndo pelas estradas da América? Ou seguir para um monastério no Tibet e sentar no topo de uma montanha com ar rarefeito, meditando na busca da revelação?
Não sei. Mas tenho a certeza que o esporte, talvez até mais que meus pais, meus professores, meus livros e meus amigos, tenha me dado maiores oportunidades de saber quem eu sou, provido a auto-estima, o julgamento moral e a decisão que me ajudaram e ajudam na busca da auto-realização. O esporte abre caminhos em nossas mentes e, como disse antes: se somos seres morais, ele nos ajudará pelo menos a considerar as conseqüências de nossas ações de um modo prático.
É ótimo que estejam procurando no esporte a solução para a obesidade infantil e na adolescência. É bom que vejam que precisamos de tempo e lugares para praticar as atividades que desejarmos, de forma mais barata e livre. Há uma enorme quantidade de estímulos que podem ser gerados com isso. Por exemplo, eu gosto muito de correr pelas avenidas e ruas que normalmente passo de carro. A sensação de ver os quilômetros serem engolidos pelas passadas e não pelos pneus do automóvel é inebriante. Quantas outras pessoas não se apaixonariam pelo esporte por outros motivos que a razão desconhece? Ainda mais hoje em dia, em que o esporte é um dos poucos shows que ainda não sabemos o final, tantas são as variáveis e paixões intervenientes.
Temo pela maneira como o esporte, algumas vezes, é mercantilizado, tornando o custo de algumas modalidades proibitivo para muitos. Ainda bem que maratonas e triathlons raramente passam na TV e os quenianos são uns caras legais e risonhos, mas também tímidos e reservados!
Por isso, quando as pessoas me dizem – “o esporte é só um jogo” – não acredito. Amor não é só sair com quem você gosta, assim como sustentar um lar não é só colocar comida à mesa. O esporte desmonta os apelos por caminhos fáceis, sem esforço. O esporte me ajuda a entender as pessoas. Esporte é um tipo de vida.
E um atleta é um bom tipo de pessoa para ser, mesmo que você não seja tão bom no jogo.