Viva a Diferença !
Segue abaixo o comentário que fiz a respeito do artigo publicado na Revista de Intendência (www.sdpp.aer.mil.br/revint.html - número 2). O objetivo é a defesa da diversidade cultural como um fator de fortalecimento das organizações.
"Rio de Janeiro, 21 de março de 2006.
Cumprimentando-a pelo incisivo e instigante artigo publicado na 2ª edição semestral da Revista de Intendência sob o título “Em Busca do Novo Soldado de Intendência”, gostaria de registrar minhas considerações a respeito de assuntos nele abordados.
Até bem pouco tempo atrás, a Economia era considerada a “rainha das ciências sociais”. Os seres humanos seriam voltados para a perfeição, para a maximização das qualidades e inclinados à racionalidade, ao lucro e ao bom-senso. À medida que as sociedades se modernizassem e enriquecessem, tornar-se-iam mais materialistas, mais seculares. As pessoas, mais educadas, rejeitariam os nacionalismos, os tribalismos, os fanatismos. Em cima de tudo isso, acreditávamos ainda que a tecnologia das comunicações globalizadas e da internet favoreceria a cooperação mundial e o entendimento, criando uma grande consciência humana independente e racional.
Bem, parece que nenhuma dessas suposições tornou-se verdade. A religião não empalideceu – pelo contrário – tem se tornado mais forte e fundamentalista. Os nacionalismos e tribalismos não se extinguiram, e instituições supranacionais como a ONU e a União Européia sofrem constantes crises de identidade.
Hoje percebemos que as forças econômicas e tecnológicas não corroem as culturas e os valores locais de povos ou países. Ao invés disso, são os valores e as culturas que dão forma ao desenvolvimento econômico, ao destino de pessoas e de nações. Não é difícil perceber que, à medida que as pessoas tornam-se mais educadas e abastadas, as diferenças culturais tornam-se mais pronunciadas, e não menos, chegando elas, por vezes, a reagir agressivamente diante do que consideram afrontas à sua dignidade cultural.
Em suma, a Economia ao assumir, por premissa, que as pessoas são de perfil racional, razoáveis e respondem uniformemente a incentivos, não é mais a rainha. Os fatos e as percepções advindas dos últimos tempos nos trazem à tona a necessidade de flertarmos com a Sociologia, a Teologia, a História e a Antropologia, entre outras “princesas”. Até mesmo os economistas já se aperceberam disto, como podemos ver nas teorias econômicas mais modernas que abrangem enfoques comportamentais e culturais em suas formulações.
Há uma mudança fundamental acontecendo. Hoje, as pessoas são menos interessadas apenas em si mesmas – percebem-se também como agentes e produtos sociais dos grupos culturais a que pertencem, sejam famílias, instituições, grupos religiosos ou povos. Disso se conclui que é muito mais difícil mudar o destino de indivíduos e povos apenas usando ferramentas econômico-financeiras. Grandes somas têm sido dirigidas, por exemplo, a regiões pobres da África e América Central sem grandes resultados. E como bem demonstraram os economistas Rajan e Subramanian, não existe correlação entre ajuda financeira e crescimento(†).
A própria nação brasileira tem dirigido mais e mais recursos para a educação nos últimos orçamentos. Mesmo se não considerarmos a forma como eles são investidos, constatamos que estudantes que prescindem de capital social e cultural (porque não são oriundos de famílias intactas, organizadas) tendem a se beneficiar menos dos esforços com eles despendidos.
Resumindo: se o grande conflito do século XX foi entre as economias de mercado e as planificadas, nossas novas questões sem dúvida passarão pelo entendimento de como culturas mudam e podem ser mudadas, como o capital cultural e social pode ser nutrido e desenvolvido – e o mais importante de tudo – como conflitos culturais, atualmente tão destrutivos, podem ser transformados em competição cultural saudável e geradora de progressos para as instituições.
Em razão dessas reflexões é que acredito que a questão financeira não deve ser sobre-dimensionada e que a diversidade cultural não deve ser encarada como nociva, como algo a ser eliminado, tal qual em
“Muitos de nossos militares e civis trocariam nossa Instituição se houvesse outra oportunidade de emprego que lhes pagasse melhor. Em segundo lugar, a ausência de uma cultura única, trocada por diversas culturas por vezes divergentes, sem compartilhamento de valores e reconhecimento da missão individual e da Instituição”.
Também discordo quando V. Sa., ao mencionar fatos que, nos últimos tempos, têm influenciado negativamente a formação acadêmica do soldado de intendência, acaba por concluir que
“... nossos valores essenciais deixam de se perpetuar, e novos são criados. Não há uma evolução natural na cultura e nos valores. Acabamos por ter uma população multicultural, cujos valores algumas vezes são incompatíveis ...”
Novamente, dentre as possíveis ações com vistas ao compartilhamento de valores, atitudes e conhecimentos discordo da proposta de uma estruturação da comunicação
“... de modo a favorecer a alavancagem e a unificação de cultura”.
Finalmente, considero que o potencial para a adaptabilidade é diretamente proporcional à variedade dos conhecimentos do indivíduo e, indutivamente, a competitividade de uma instituição é diretamente proporcional à diversidade de culturas que ela agrega por meio de seus integrantes, aumentando sua capacidade de desenvolvimento, de criatividade e de renovação necessárias à sua sobrevivência.
Se, como escreveu V. Sa, “adaptabilidade é algo essencial no contexto da Intendência”, conclui-se que é estratégico fomentar a diversidade cultural e intelectual, bem como a ação afirmativa das consideradas minorias. Como bem diz o mote do CECOMSAER para 2006: “A nossa força vem da nossa gente”.
(†) Rajan, Raghuram G., Subramanian, Arvind – What Undermines Aid’s Impact on Growth? International Monetary Fund Working Paper, June 2005."
"Rio de Janeiro, 21 de março de 2006.
Cumprimentando-a pelo incisivo e instigante artigo publicado na 2ª edição semestral da Revista de Intendência sob o título “Em Busca do Novo Soldado de Intendência”, gostaria de registrar minhas considerações a respeito de assuntos nele abordados.
Até bem pouco tempo atrás, a Economia era considerada a “rainha das ciências sociais”. Os seres humanos seriam voltados para a perfeição, para a maximização das qualidades e inclinados à racionalidade, ao lucro e ao bom-senso. À medida que as sociedades se modernizassem e enriquecessem, tornar-se-iam mais materialistas, mais seculares. As pessoas, mais educadas, rejeitariam os nacionalismos, os tribalismos, os fanatismos. Em cima de tudo isso, acreditávamos ainda que a tecnologia das comunicações globalizadas e da internet favoreceria a cooperação mundial e o entendimento, criando uma grande consciência humana independente e racional.
Bem, parece que nenhuma dessas suposições tornou-se verdade. A religião não empalideceu – pelo contrário – tem se tornado mais forte e fundamentalista. Os nacionalismos e tribalismos não se extinguiram, e instituições supranacionais como a ONU e a União Européia sofrem constantes crises de identidade.
Hoje percebemos que as forças econômicas e tecnológicas não corroem as culturas e os valores locais de povos ou países. Ao invés disso, são os valores e as culturas que dão forma ao desenvolvimento econômico, ao destino de pessoas e de nações. Não é difícil perceber que, à medida que as pessoas tornam-se mais educadas e abastadas, as diferenças culturais tornam-se mais pronunciadas, e não menos, chegando elas, por vezes, a reagir agressivamente diante do que consideram afrontas à sua dignidade cultural.
Em suma, a Economia ao assumir, por premissa, que as pessoas são de perfil racional, razoáveis e respondem uniformemente a incentivos, não é mais a rainha. Os fatos e as percepções advindas dos últimos tempos nos trazem à tona a necessidade de flertarmos com a Sociologia, a Teologia, a História e a Antropologia, entre outras “princesas”. Até mesmo os economistas já se aperceberam disto, como podemos ver nas teorias econômicas mais modernas que abrangem enfoques comportamentais e culturais em suas formulações.
Há uma mudança fundamental acontecendo. Hoje, as pessoas são menos interessadas apenas em si mesmas – percebem-se também como agentes e produtos sociais dos grupos culturais a que pertencem, sejam famílias, instituições, grupos religiosos ou povos. Disso se conclui que é muito mais difícil mudar o destino de indivíduos e povos apenas usando ferramentas econômico-financeiras. Grandes somas têm sido dirigidas, por exemplo, a regiões pobres da África e América Central sem grandes resultados. E como bem demonstraram os economistas Rajan e Subramanian, não existe correlação entre ajuda financeira e crescimento(†).
A própria nação brasileira tem dirigido mais e mais recursos para a educação nos últimos orçamentos. Mesmo se não considerarmos a forma como eles são investidos, constatamos que estudantes que prescindem de capital social e cultural (porque não são oriundos de famílias intactas, organizadas) tendem a se beneficiar menos dos esforços com eles despendidos.
Resumindo: se o grande conflito do século XX foi entre as economias de mercado e as planificadas, nossas novas questões sem dúvida passarão pelo entendimento de como culturas mudam e podem ser mudadas, como o capital cultural e social pode ser nutrido e desenvolvido – e o mais importante de tudo – como conflitos culturais, atualmente tão destrutivos, podem ser transformados em competição cultural saudável e geradora de progressos para as instituições.
Em razão dessas reflexões é que acredito que a questão financeira não deve ser sobre-dimensionada e que a diversidade cultural não deve ser encarada como nociva, como algo a ser eliminado, tal qual em
“Muitos de nossos militares e civis trocariam nossa Instituição se houvesse outra oportunidade de emprego que lhes pagasse melhor. Em segundo lugar, a ausência de uma cultura única, trocada por diversas culturas por vezes divergentes, sem compartilhamento de valores e reconhecimento da missão individual e da Instituição”.
Também discordo quando V. Sa., ao mencionar fatos que, nos últimos tempos, têm influenciado negativamente a formação acadêmica do soldado de intendência, acaba por concluir que
“... nossos valores essenciais deixam de se perpetuar, e novos são criados. Não há uma evolução natural na cultura e nos valores. Acabamos por ter uma população multicultural, cujos valores algumas vezes são incompatíveis ...”
Novamente, dentre as possíveis ações com vistas ao compartilhamento de valores, atitudes e conhecimentos discordo da proposta de uma estruturação da comunicação
“... de modo a favorecer a alavancagem e a unificação de cultura”.
Finalmente, considero que o potencial para a adaptabilidade é diretamente proporcional à variedade dos conhecimentos do indivíduo e, indutivamente, a competitividade de uma instituição é diretamente proporcional à diversidade de culturas que ela agrega por meio de seus integrantes, aumentando sua capacidade de desenvolvimento, de criatividade e de renovação necessárias à sua sobrevivência.
Se, como escreveu V. Sa, “adaptabilidade é algo essencial no contexto da Intendência”, conclui-se que é estratégico fomentar a diversidade cultural e intelectual, bem como a ação afirmativa das consideradas minorias. Como bem diz o mote do CECOMSAER para 2006: “A nossa força vem da nossa gente”.
(†) Rajan, Raghuram G., Subramanian, Arvind – What Undermines Aid’s Impact on Growth? International Monetary Fund Working Paper, June 2005."

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